Escola de Alabês
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ENTREVISTA
1 - O precisa para ser um Babalorixá? Quais os deveres conferidos à um Babalorixá? A consagração sacerdotal dentro do batuque vem a partir do recebimento dos axé de obé e ifás, após já terem sido feito o orumalé (família de Orixás) da pessoa. A partir daí a pessoa já tem condições de exercer funções e atividades exclusivas dos sacerdotes africanistas. Seus deveres principais são de ser o zelador de orixá, ensinar, orientar seus filhos e clientes em todos os campos da natureza humana e espiritual. 2 - A religião que o Sr. professa é de matriz africana. Como o Sr. vê os fundamentos passados pela oralidade (ancestrais) que hoje se perdem e se modificam entre os praticantes da religião? Na verdade esse é um assunto bem polêmico e de diversas interpretações. Na minha visão é com uma certa tristeza que vejo a religião praticada por certas pessoas que se dizem batuqueiras. O que falta realmente é a humildade de fazer aquilo que aprenderam sem ter a necessidade de “inventar” fundamentos. 3 - O que preciso para entrar na Religião, se entra por vontade = livre arbítrio ou somos escolhidos pelos Orixás? Existem diversas maneiras ao qual uma pessoa entra para a religião dos Orixás, muitos por problemas de saúde ao qual se curam por fazerem obrigação aos Pais, por vontade própria, por fazerem parte de uma família ao qual já se cultua a Nação, enfim, muitas razões, sendo cada uma bem particular. Mas o necessário realmente para ser um religioso africanista é, conhecer bem a religião antes de entrar, e principalmente ter a fé acima de tudo e o amor no coração com a religião e com os próprios Orixás. 4 - O Panteão de Orixás é grande. Como é feita a comunicação do astral com o mundo em que vivemos? Toda comunicação com o “astral” ou o mundo dos Orixás é feita através de manipulação de energias, seja ela numa chamada aos Orixás, acendendo uma vela, rezando seus Orins, consultando aos Ifás (búzios), tocando um tambor, fazendo frentes e oferendas até mesmo com graus de obrigações às divindades. 5 - Os Orixás são forças da natureza, é uma verdade ou apenas especulação? Verdade, com certeza. Toda energia ou forças da natureza está ligado à algum orixá. Por exemplo: O vento à Iansã, o mar à Iemanjá e etc. 6 - Um Babalorixá vive uma vida normal? Vive é claro, apesar de todo o compromisso religioso que a função Sacerdotal nos exige, temos uma vida completamente normal, igual a de qualquer ser humano. Viajamos, saímos, nos divertimos, temos nossos problemas a resolver também, talvez o que nos diferencie de outras pessoas é a espiritualidade que temos e a condição inabalável de nossa fé. 7 - Qual o fundamento do sacrifício? Isso é oferenda oferenda? Como já diz a palavra Sacrifío (em latim Sacrificium) significa “tornar sagrado”, ou seja, todo o sacrifício feito em religião afro tem com o objetivo a ligação com o divino, o ato de imolação serve como um ato de tornarmos sagrado aquilo que é ofertado ao Orixás ou pratica de sua liturgia ritual. 8 - Já ouvi falar no termo "Ser Pronto" na religião, o que significa isso? Pronto é um termo destinado aquele praticante que já tem todos os axés correspondentes à função sacerdotal, bem como todo o seu assentamento de Orixás. Atualmente também se designa o termo pronto aos que já fizeram assentamento apenas de seu Orixá dono de sua cabeça. Chamados prontos de Orí, mas que ainda não tem todos os axés e assentamentos correspondentes ao sacerdócio. 9 - O sentimento, os fundamentos são passados em sua totalidade dentro do templo religioso? Deveria ser, mas hoje em dia não é mais assim. Com o advento da informática, muitos iniciados procuram solucionar suas dúvidas através de meios de comunicação desta área, o que se torna não em aprendizado, mas um gerador de dúvidas maior ainda. Penso que todos deveriam esclarecer suas dúvidas dentro da casa ao qual pertencem, pois nada melhor que seu zelador de santo para solucioná-las de acordo com a feitura da casa em si. 10 - Os médiuns na nação são conscientes? Não. Nenhuma pessoa médium ou cavalo de santo, como dizemos, tem a consciência que seu Orixá a ocupa. Visto em fundamentos dentro da Nação que baseiam o fator Ocupação. 11 - Você, como Babalorixá vizualiza como o futuro da religião? Dentro da minha fé, espero que cada vez mais a religião afro, se perpetue, que acabem as discriminações e os mal entendidos voltados ao Batuque. O que realmente me preocupa é a maneira com que certas pessoas que se dizem religiosos estão fazendo o nosso Batuque. Infelizmente isso possa fazer com que o leigo pense generalizadamente. 12 - Para você, religião é sinônimo de caridade? Depende do que você se refere ao termo “caridade”. No caso da nação especificamente, existem fundamentos que envolvem a troca de axé, ou seja, a função de caridade até existe, mas depende de que maneira é entendida e do caso a ser tratado. 13 - Você é Alabê e Babalorixá? Onde esses caminhos se cruzam? Sim. Na verdade isso são graus dentro da religião que não tem a mesma função. O Alabê é o religioso destinado ao toque e cântico das rezas dentro do batuque, é dele a função de conhecer os fundamentos de tambor, toques, rezas destinados à todos os lados pertencentes à Nação, assim como arisun (ritos fúnebres). O Babalorixá é o sacerdote, o zelador de santo e orientador espiritual. 14 - Qual o lado positivo e o lado negativo dos meios de comunicação (internet, tv, rádio) na Religião? Acho que os meios de comunicação trouxeram para a religião, uma aproximação das pessoas com o batuque e a perda de preconceitos. Mas em contra ponto, também tornou o Batuque um dispositivo de mídia. Uma perda da oralidade e até mesmo o segredo de fundamentos rituais a ponto de ficarem expostos em muitos sites, inclusive de relacionamentos. 15 - A Religião de matriz africana é unida? Ou seja, os praticantes visualizam o mesmo fim, a propagação de forma correta e idônea de um fundamento? Esse é um assunto bem polêmico de se abordar. Vejo que em situações particulares nem tanto, mas quando o assunto toma uma dimensão de proporção maior ao ponto de atingir a religião como um todo, daí sim vemos uma união por partes dos africanistas. Quanto à forma correta e idônea de se levar o fundamento à risca, creio que muitos praticam da forma que aprenderam em suas feituras, passados pela oralidade por anos de pratica dentro da casa de religião ao qual pertencem ou pertenceram e assim o farão sucessivamente aos seus filhos de santo.
Entrevista realizada pelo site www.ogunonire.com.br |



